
Autobiografia a quatro mãos.
Sempre que termino de ler uma biografia, fico me sentindo como uma manchinha de comida na toalha da mesa. Foi assim com a do Borges e… qual mais? Não lembro. Normalmente a figura é grande demais para o leitor aqui.
Com a do Buñuel foi diferente. A autobiografia serviu para trazê-lo mais próximo dos mortais. Desmitificou bastante a imagem que tenho dele. Mas a imagem do diretor genial continua a mesma.
Com a ajuda do colaborador Jean-Claude Carrière, ele conta fatos, marcantes ou não, de usa vida de menino rico, de suas relações com figuras importantes da arte – Dalí, Lorca, Chaplin, Breton etc. – e de suas andanças pelo mundo (sempre financiadas pelo dinheiro da família).
Sobre sua obra, discorre até com certa displicência. Não me lembro de alguma passagem em que ele mencione o cinema como uma paixão. Os fatos vão se sucedendo até que ele faz o primeiro filme, depois o segundo e assim vai. Paixão mesmo ele demonstra pelos amigos, pelo surrealismo, pelo tabaco e pelo álcool (essas são as mais marcantes, pelo menos para mim).
Fala de sua obra de forma desinteressada. Não explica nada, apenas expõe. Quem lê o livro em busca de alguma chave para compreender seus filmes termina muito desapontado. As menções que faz aos elementos que emprega não elucidam. Ele apenas os cita, sem mencionar os motivos nem, muito menos, os significados.
Buñuel zomba das interpretações e pretensas análises profundas feitas sobre sua obra. Em certa passagem, fala de “críticos fanáticos por simbolismos”. Ele nega a psicanálise, o que não o impede de fazer, vez ou outra, algumas observações psicanalíticas: “Algumas mulheres gostam dos anões. Talvez porque tenham a impressão de ter ao mesmo tempo um amante e um filho”. A licença para essa falta de coerência é concedida por ele mesmo – não lembro da passagem –, quando se refere a uma certa ambiguidade inerente à sua personalidade.
O livro causa a impressão de que seu cinema é puramente intuitivo, tamanho é o desprezo que Buñuel demonstra pela ciência, inclusive a cinematográfica. Fica claro que o cinema não passa, para ele, de uma forma de expressar aquilo que ele considera de fato importante.
Escrever sobre a possibilidade de o cinema de Buñuel ser intuitivo pode soar redundante e até ingênuo para quem sabe algo do surrealismo. Mas a leitura do livro traz algo diferente da experiência de entrar em contato com qualquer obra desse movimento. É como se o autor-biografado quisesse provar a espontaneidade e até a gratuidade de suas escolhas.
Após um jantar, sem sequer se questionarem do motivo, os convidados não conseguem deixar a casa do anfitrião. Assistir a um filme com esse enredo causa estranheza, mas sabe-se da filiação do diretor ao surrealismo ‑ além de a condução do filme ser genial e atingir o objetivo da perda da relação causa‑efeito. Independentemente de se buscar significado nos elementos do filme, algo natural nos seres humanos, saber que não havia uma “intenção maior” do diretor causa muito mais do que estranheza. Dá um certo incômodo mesmo.
Uma vez uma menina me disse, irritadíssima, que achava os filmes do David Lynch idiotas. Perguntei por que e ela respondeu: “Vi uma entrevista com ele em que perguntaram o motivo de ele inserir certos elementos nos filmes. Ele respondeu, simplesmente, ‘não é por nada, apenas faço assim’”.
Tanto num caso como no outro, o problema está no jeito de ver cinema – expectativa de “decifrar”, saber o que o diretor queria dizer; ou seja, na recepção, e não na forma como o filme é feito.