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Arquivos da Categoria: cinema

Brasil, 2009, 75 min. Marcelo Gomes e Karim Aïnouz

Viajo porque preciso, volto porque te amo é um road-movie.

Em filmes desse gênero – se é que se pode chamar de gênero –, os personagens viajam em busca – conscientemente ou não – de amadurecimento, autoconhecimento, de elaboração do passado. O percurso é mais importante que o destino. Os personagens se lançam à viagem e são expostos a experiências.

Não é à toa que a viagem de avião está excluída. O tal encontro de si mesmo buscado requer a estrada, o caminho. O avião é objetivo demais para isso, há apenas o local de partida e o de chegada. Em Paris, Texas, de Wim Wenders, por exemplo, o avião é literalmente negado.

Todos esses elementos estão em Viajo porque preciso

Mas o que mais me chama a atenção nesse filme é uma virada.

O título é repetido pelo narrador-protagonista durante todo o tempo em que o espectador ainda tem motivos para achar que há uma mulher à espera. Quando a separação fica clara, o tom do narrador muda.

A saudade e o desejo de voltar o quanto antes dão lugar ao receio do retorno, à vontade de fazer uma viagem eterna. O narrador passa a preferir a viagem de “formação” ao retorno doloroso, que o colocará diante da realidade que tinha deixado para trás.

Essa viagem é coroada com a subversão total e textual do título. Na parte final do filme, o narrador diz, uma única vez: “Viajo porque preciso, não volto porque ainda te amo”.

Este “preciso” é muito diferente daquele que aparece no título e no início do filme. Aquele era indesejado, obstáculo para a realização amorosa. Este último é como uma tentativa de lidar com a dor, bem ao estilo do que ocorre em um road-movie.

Autobiografia a quatro mãos.

Sempre que termino de ler uma biografia, fico me sentindo como uma manchinha de comida na toalha da mesa. Foi assim com a do Borges e… qual mais? Não lembro. Normalmente a figura é grande demais para o leitor aqui.

Com a do Buñuel foi diferente. A autobiografia serviu para trazê-lo mais próximo dos mortais. Desmitificou bastante a imagem que tenho dele. Mas a imagem do diretor genial continua a mesma.

Com a ajuda do colaborador Jean-Claude Carrière, ele conta fatos, marcantes ou não, de usa vida de menino rico, de suas relações com figuras importantes da arte – Dalí, Lorca, Chaplin, Breton etc. – e de suas andanças pelo mundo (sempre financiadas pelo dinheiro da família).

Sobre sua obra, discorre até com certa displicência. Não me lembro de alguma passagem em que ele mencione o cinema como uma paixão. Os fatos vão se sucedendo até que ele faz o primeiro filme, depois o segundo e assim vai. Paixão mesmo ele demonstra pelos amigos, pelo surrealismo, pelo tabaco e pelo álcool (essas são as mais marcantes, pelo menos para mim).

Fala de sua obra de forma desinteressada. Não explica nada, apenas expõe. Quem lê o livro em busca de alguma chave para compreender seus filmes termina muito desapontado. As menções que faz aos elementos que emprega não elucidam. Ele apenas os cita, sem mencionar os motivos nem, muito menos, os significados.

Buñuel zomba das interpretações e pretensas análises profundas feitas sobre sua obra. Em certa passagem, fala de “críticos fanáticos por simbolismos”. Ele nega a psicanálise, o que não o impede de fazer, vez ou outra, algumas observações psicanalíticas: “Algumas mulheres gostam dos anões. Talvez porque tenham a impressão de ter ao mesmo tempo um amante e um filho”. A licença para essa falta de coerência é concedida por ele mesmo – não lembro da passagem –, quando se refere a uma certa ambiguidade inerente à sua personalidade.

O livro causa a impressão de que seu cinema é puramente intuitivo, tamanho é o desprezo que Buñuel demonstra pela ciência, inclusive a cinematográfica. Fica claro que o cinema não passa, para ele, de uma forma de expressar aquilo que ele considera de fato importante.

Escrever sobre a possibilidade de o cinema de Buñuel ser intuitivo pode soar redundante e até ingênuo para quem sabe algo do surrealismo. Mas a leitura do livro traz algo diferente da experiência de entrar em contato com qualquer obra desse movimento. É como se o autor-biografado quisesse provar a espontaneidade e até a gratuidade de suas escolhas.

Após um jantar, sem sequer se questionarem do motivo, os convidados não conseguem deixar a casa do anfitrião. Assistir a um filme com esse enredo causa estranheza, mas sabe-se da filiação do diretor ao surrealismo ‑ além de a condução do filme ser genial e atingir o objetivo da perda da relação causa‑efeito. Independentemente de se buscar significado nos elementos do filme, algo natural nos seres humanos, saber que não havia uma “intenção maior” do diretor causa muito mais do que estranheza. Dá um certo incômodo mesmo.

Uma vez uma menina me disse, irritadíssima, que achava os filmes do David Lynch idiotas. Perguntei por que e ela respondeu: “Vi uma entrevista com ele em que perguntaram o motivo de ele inserir certos elementos nos filmes. Ele respondeu, simplesmente, ‘não é por nada, apenas faço assim’”.

Tanto num caso como no outro, o problema está no jeito de ver cinema – expectativa de “decifrar”, saber o que o diretor queria dizer; ou seja, na recepção, e não na forma como o filme é feito.

Fui ver Caro Francis e não me arrependi.

Estou falando do documentário como história, independentemente de qualquer opinião à esquerda ou à direita ou de considerar ou não confiáveis as opiniões do Paulo Francis.

A edição feita das suas tiradas é impagável.

Os depoimentos são muito ricos, mas, como sempre ocorreu na carreira dele, a estrela é mesmo o Francis. Mesmo quando é acusado de plagiador e possuidor de cultura de best-seller.

Não sei se isso vale para todo mundo, mas fico impressionado em descobrir, nesses documentários, as conexões entre certas pessoas. Como eu era muito novo quando Francis estava no auge, não sei muito bem quem são/foram seus contemporâneos conhecidos. Fiquei pasmo de ver os depoimentos do Daniel Piza, por exemplo, que trabalhou com o Francis.

Quanto ao Mainardi, lamentável como sempre. Mais uma vez disposto a apontar um medíocre, desta vez o Caio Túlio Costa. Se eu fosse o diretor, teria cortado. Ficou de muito mal gosto na minha opinião.

No final, abordando a morte e a amizade do Francis, o tom segue pelo sentimentalismo (isso não é pejorativo).

Enfim, se você está disposto a gastar 90 minutos do seu tempo com um bom documentário, mas deixando suas posições de lado, recomendo.

Do Carapuceiro:

E DEUS OXIGENOU O MUNDO -SÉRIE COISA DE CINEMA

Ela pode. Ela pode tudo. A galega está podendo.

E deus oxigenou o mundo quando fez Scarlett Johansson.

A única poderosa de Hollywood pós-Marilyn que passa aos homens do mundo inteiro a sensação de que eles também podem tudo com ela.

Scarlett parece aquela loira que lava o carro da família, no final da manhã de domingo no subúrbio, qualquer Babel do mundo, com aquele shortinho vermelho que enlouquece a humanidade, a aldeia, o universo globalizado.

Scarlett tem de Monroe aquela suposta ingenuidade que deixa todo homem de quatro. A falsa ingenuidade que faz crer que as mulheres precisam muito dos homens, hahahahahahaha. Nisso que elas nos escravizam, ao nos justificar como necessários.

Mas é na fita de Sophia Coppola, que ela está mais linda.

“Encontros e desencontros”, o velho Bill Murray passex, passado, dá-me saquê que a vida é nada, play again karaokê, que a vida é menos ainda.

Em “Dália Negra”, outro filmaço, ela consegue unir dois homens, o frio e o quente, ela pode. Ela vira mocinha século XVII naquela fita dos brincos de pérola, safadeza-vintage. Com Woody Allen, no Match Point, está completa: santa, diva e puta.

Dos Blogs do Além, por Vitor Knijnik:

QUINTA-FEIRA, 24 DE SETEMBRO DE 2009

Realidade 3D

Fui apresentar meu novo projeto cinematográfico ao meu produtor. Ele leu e me disse que gostou protocolarmente. Depois suspirou, fez uma pausa e falou:
– Bergman, veja bem.
Sempre que alguém diz “veja bem” eu me acomodo na cadeira.
– Os tempos são outros – disse ele.
– Não tenho como discordar – e acrescentei, para quebrar o gelo (aqui na Suécia é abundante) – e os de amanhã serão outros ainda.
Papo cabeça é comigo mesmo.
– Veja bem – insistiu.
Dessa vez pensei em dizer que eu iria procurar um oculista logo que saísse dali, mas me calei porque vi que o assunto era sério.
– Até o Woody Allen está fazendo algumas concessões para viabilizar suas produções. Em nome do financiamento, ele tem filmado fora de sua amada Nova York, vem aceitando dinheiro de prefeituras e governos locais que queiram ter suas cidades como cenário de seus filmes. Você sabe, isso ajuda a promover o turismo. E como você influenciou Woody, pensamos que agora ele poderia lhe retribuir a influência.
– Entendo. Vamos logo, onde vocês querem que eu rode meu novo longa?
– Dubai.
– DUBAI? É difícil ambientar um drama existencial em condomínio em forma de palmeira que adentra pelo mar. Ninguém tem conflito interior em Dubai.
– Bergman, são tempos difíceis para o cinema. Woody pensa até em filmar no Rio de Janeiro.
– OK, se for o único jeito.
– Na verdade, queremos lhe pedir só mais uma pequena concessão.
– Mais uma?
– Na verdade, uma que vale por três. Será necessário que você rode também uma versão em 3D. Pronto, falei.
– Explique melhor.
– Muda muito pouca coisa. Imagine a sua cena clássica de O Sétimo Selo, aquela em que o personagem joga xadrez contra a morte. Na hora da captação, bastaria fazer algumas tomadas extras que valorizam o recurso do 3D, como, por exemplo, a mão da morte movimentando um peão em direção à câmera. É só para dar uns sustinhos na plateia.
– E se eu não aceitar…
– Vai ser muito difícil financiar seu filme.
– OK, era isso?
– Uma última coisa: precisamos de sua autorização para lançar uma linha de bonecos dos personagens principais.
– Mas quem disse que meu filme é infantil?
– E quem disse que é a criança que compra esse tipo de coisa hoje em dia?
Cheguei em casa arrasado. Não quis nem discutir a relação com a Liv. Mas ela, com seu senso prático de mulher, consolou-me e ainda me aconselhou:
– Berg, as poltronas estão muito confortáveis para os seus filmes. Ninguém mais vive de mostras e cineclubes. Se for para aderir, vamos com tudo. Proponho até que você mude o titulo da película para O Oitavo Selo – a Revanche.
POSTADO POR BERGMAN ÀS 04:48
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