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Em 2009, presenciei este acidente.

Eu estava de carro na Av. Europa, sentido bairro. De repente ouvi barulho de freada e de algo parecido com um carro se despedaçando no sentido contrário. Quando olhei, um Ford Fusion passou a mais de 80 km/h – com estilhaços do carro caindo. Atrás, dele um Audi passou tão rápido quanto. Só que atrás do Audi se passou a cena que jamais vou esquecer: um rapaz de bruços, desacordado, deslizava no asfalto quase na mesma velocidade do carro, até parar aos poucos.

Parei o carro e liguei para o resgate.

Imediatamente as pessoas que estavam em um restaurante saíram para ver o ocorrido. A rua ficou repleta de gente.

Segundo as pessoas que viram o rapaz sendo atropelado, o Fusion o atingiu primeiro, ele ficou meio tonto no meio da rua, e o Audi o pegou em cheio, em cima da faixa de pedestres.

Nenhum dos motoristas parou para prestar socorro.

Um motoboy que passava pelo local seguiu o Audi e viu quando ele entrou em posto de combustível. Chamou a polícia e avisou sobre o que tinha ocorrido. Pouco depois uma viatura chegou ao posto e obrigou o motorista a voltar para o local do acidente.

O motorista do Audi disse à polícia que parou o carro no local do acidente e que fugiu por ter medo da reação das pessoas. Mentira. O carro atropelou o rapaz e subiu a Av. Europa em alta velocidade sem parar em momento algum. Segundo o motoboy, o motorista parou para comprar cigarros.

Enquanto isso, o rapaz atropelado permanecia na mesma posição: de bruços, no meio da rua. Apesar de as pessoas que chegaram perto dizerem que ele ainda estava vivo, ele não se moveu em momento algum.

A viatura do resgate tentava chegar ao local, enfrentando o congestionamento brutal dos Jardins em uma noite de sábado de temperatura agradável. Chegou 40 minutos depois.

Tentaram reanimar o rapaz, mas sem resultado. Ele foi levado, já morto, do local.

O motorista, um típico frequentador do bairro, estava cercado pela polícia e falava ao celular. O seu Audi era blindado e não trazia marca alguma do atropelamento.

As pessoas em volta – àquela altura misturaram-se frequentadores do restaurante, manobristas e garçons – xingavam e ameaçavam o motorista, que não parecia se importar.

Eu estava com a câmera no carro, mas não tive coragem de pagá-la para registrar o que acontecia. Estava me sentindo muito mal e achei na hora que isso seria de um mau gosto enorme. Mas fiquei muito decepcionado com a parca cobertura da imprensa e com o esquecimento em que o acidente caiu depois. Enfim, isso acontece todo dia e não há espaço para repercutir todos os casos, não é mesmo?

Como na reportagem, muitas pessoas já falavam que os motoristas estariam disputando um racha. Não sei, não vi o suficiente para opinar.

Não preciso de nada para relembrar aquelas cenas, mas resolvi escrever agora, tanto tempo depois, por causa das mortes recentes de Vitor Gurman, atropelado na calçada, e Carolina Menezes Cintra Santos, que teve seu carro arremessado por um Porsche em altíssima velocidade. Vejo um padrão nesses acontecimentos.

Os três casos, por mais que sejam classificados como acidentes, refletem uma atitude que vejo todos os dias nas ruas. Não há nada de fortuito. O modo como agiram os quatro motoristas mencionados neste post é conhecido de qualquer paulistano.

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