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Mais uma vez eu aqui achando que as pessoas se traem pelo discurso.

Não tem jeito, na minha visão, é tudo muito descarado.

Sobre a polêmica da ligação de José Serra feita para Gilmar Mendes interromper votação no Supremo – sobre a obrigatoriedade de apresentação de dois documentos na hora de votar -, o ministro se manifestou da seguinte forma (hoje, no Estado de S. Paulo):

“Eu não recebi ligação do Serra naquele dia. Isso é fantasia. E aquela coisa de que ele me chamou de ‘meu presidente’ também é fantasiosa”.

De fato, estranhei dois pontos da denúncia feita por repórter da Folha de S. Paulo: primeiro, Gilmar Mendes não é mais presidente do STF; segundo, o fato de Serra ter feito a tal ligação, aparentemente, sem se preocupar com a presença de jornalistas no recinto.

Mas nada disso exclui a possibilidade de a ligação ter mesmo ocorrido.

Quanto às declarações de Gilmar Mendes, separemos-a em duas partes. Na primeira, a negação do fato, ou seja, o repórter mentiu ou se enganou, pois a ligação não existiu. Ok, a negação é válida. Neste caso, é a palavra do ministro contra a do repórter, e o leitor que tire suas conclusões.

Porém há uma segunda parte. Depois de negar a existência da ligação, Mendes nega também ter sido chamado de “meu presidente” pelo candidato Serra. Ora, se a ligação não existiu, não é óbvio que não existiu também o uso da expressão “meu presidente”? A primeira negação não elimina a necessidade da segunda? Por que fazê-la, então?

Só depois de analisadas essas duas partes do discurso de Gilmar Mendes é que o leitor deve mesmo tirar suas conclusões. Não é necessário nenhum esforço psicanalítico ou linguístico mais aprofundado para avaliar a resposta do ministro que foi presidente do Supremo até abril deste ano.

Essa não foi a primeira polêmica envolvendo Gilmar Mendes, quase todas elas geradas por sua verborragia e por sua necessidade de ser notícia.

Nesse mesmo discurso publicado pelo Estado hoje, ele diz que “o que é realmente grave ” está ficando em segundo plano. “Sabe o que é grave? Grave é ação do Marcio Thomaz Bastos [antigo ministro da Justiça do governo Lula] em cima da maioria dos ministros que ele nomeou”.

A indignação de Mendes é uma forma batida de transferir o foco. Acusando outras mazelas, sem qualquer prova, ele tenta desviar a atenção para o fato que o atinge. Além disso, seria importante a imprensa buscar saber dos ministros mencionados por Mendes qual é sua opinião sobre a tal pressão exercida pelo ex-ministro Thomaz Bastos. Admitiriam eles a tal pressão externa? Como fica a relação entre os ministros depois de uma declaração como essa feita por um de seus integrantes?

Não é a primeira vez também que se fala em impeachment de Gilmar Mendes, latifundiário do Mato Grosso.

Se sua atuação atabalhoada na presidência do STF não foi suficiente para tal, esperemos para ver os efeitos que a ligação com um candidato à Presidência provocarão.

Palpite: nenhum, além das já corriqueiras atribuições de ego inflamado.

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